Por puro excesso aderi a tua escuridão amável
de voar com papeis sujos que o vento carrega,
de querer me alçar onde teu horizonte se afunda.
E afundar-me
como se caísse, como se calasse.
Afaguei o que dorme para sempre,
o que morre de presença, de espera,
que esquece chegar,
indiferente.
Derrubei espelhos
sem ver se tinha gente dentro,
mas resisti com palavras o bocejo,
quando jogava as meias num canto
e me sentia igual a elas.
Assim me ocultei na linguagem, amarrei meus olhos
onde outros se arrastam sem notar.
Falar era dizer menos,
fotografar a respiração.
Mas sobrava eloquência na falta de caricia
e voz para contar.
Queria apenas o fio de luz
que passava por debaixo da porta.
Mas fui claro sem dar tempo às sombras,
à noite,
que falava por gestos,
por querer,
por ninguém.
Apenas lembro,
mas não recordo (que é voltar a passar pelo coração),
que estava podre a água das flores,
que se escrevo é por este cansaço quase intacto,
quase tato,
deste pó que ninguém junta.
Que por puro excesso aderi a tua escuridão amável.
Mas,
são todos novos os fogos que não te iluminam.
E este poema já estava escrito
por outro ardor.
(Gabriel Gómez)
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