SOMOS INTEIRAMENTE LIVRES LOGO, INTEIRAMENTE RESPONSÁVEIS.







segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Angústias do cotidiano

Cada vez mais temeroso
Experimento da catarse no espelho
Numa escala de impasses e intransigências,
Afeto conflitante gerado em sonho.
Polos divergentes.
Representantes da forma dual
Razão e paixão...
Entrelaces do não ser.
Compreendendo, elaborando juízo ponderativo,
Com propósitos e expectativas                               
Consonantes à diversidade intolerante.
Padrões animais traumáticos
Expressados na forma de reticências...
Olhar alternativo, intrinsecamente ferido.              
Energia livre em solo fértil
Reconhecendo e entendendo
Os princípios seculares
Numa fusão de horizontes.
Interações humanas inconscientes,
Multiplicidade de aparências,
Finitas.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Fecho os olhos

    
     Fecho os olhos e piso no meu chão:
Cansada
     a morte não é tão terrível assim.
Crivada
     Cada sorriso, um olhar crispado
Retalhada
     Cada palavra, um silêncio vazio
Abafada
     Cada gesto, uma repulsa.

Desatinada busca da integridade
     Solapada
Recôndito das dores que ecurece
     Encoberta
Pesa o passado deteriorado, espreme o átimo
     Rude
Foge o dia impondo coerção aos  dogmas radicais
     Falha
Torna-se agnóstica no retorno.

As chaves!
     para libertar do cárcere
As asas!
     para voar além
As lágrimas!
     para desaparecer sob o lenço
    até que nada reste de mim...

     Fecho os olhos e piso no meu chão:
Cansada
     a morte não é tão terrível assim.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Há 101 anos, lago Wannsee.....

Sonríe mientras el arma apunta
tus últimas ideas en su pólvora…
Y espérame un minuto antes de irte.

(Heinrich vom Kleist)


Salvación


Se fuga la isla.
Y la muchacha vuelve a escalar el viento
y a descubrir la muerte del pájaro profeta.
Ahora
es el fuego sometido.
Ahora
es la carne
la hoja
la piedra
perdidos en la fuente del tormento
como el navegante en el horror de la civilización
que purifica la caída de la noche.
Ahora
la muchacha halla la máscara del infinito
y rompe el muro de la poesía.

(Alejandra Pizarnick)



terça-feira, 20 de novembro de 2012

Pressupostos da palavra.


Que soubesse o caminho
ia buscar-te
para sanar a contradição
e ser estimulante, inspirador.
Presa a este mundo
mergulho em tuas letras.
Deixo-me tomar pelo lume costumeiro,
e expresso-me livremente.
Indecifrável em seus mistérios,
incoerente no uso, ambígua,
presa a este mundo, convivemos,
antes da minha escuridão e silêncio.
Expressa sentimento dos imperfeitos,
impresso na alma,
transubstanciando-se em fato ou
o que poderia ter sido.
Dilata o tempo,
deixa lacunas à nossa imaginação.
Presentifica o ausente,
seduz como as amantes,
concretiza o inexistente.
Superficialidade cortesã,
mapa conceitual do viver,
nem sempre, conviver.
 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Apenas eu.


Com o riso vou chorando,
com a vida vou rolando,
com a dor vou buscando,
asas para voar sem qualquer pena.

Das mágoas liberto o coração,
livro das mortalhas,
das migalhas nas muralhas,
a verdadeira biralha.

Vozes sussuram em meu silêncio
que encantam o mais distraído.
Tanto tenho a ouvir...
Sem medo me entrego ao calor,
do olhar que me alimenta.
Sinto tanto frio...








Sem te olhar nos olhos


Ando pelos trilhos do descaso
para morrer um pouco
e nascer logo em seguida
para me dar conta
para me abraçar
para buscar com os olhos
para estar em dia no ontem
e esperar no amanhã.

Deixo a chuva escorrer mansa
para lavar um pouco
e secar logo em seguida
para me alagar
para me afogar
para buscar com os braços
para ouvir o murmúrio
do silêncio que virá.

Na minha própria loucura
saboreando entre os dissabores
da insanidade perfeita
sentindo a textura do vento, voo
para o abismo solitário,
para a imensidão do infinito,
sem te olhar nos olhos....







sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Salgada


Movida por emoções plurais,
que só tu podias externar.
Dias em silêncio, acreditando,
sem nada poder fazer.
Seus olhos não falaram
da existência a razão,
da formação do nácar,
da aflição silenciosa.
A impotência na sua partida
quando os olhos adormecem.
É a dor nos ossos que vem de dentro,
e o fluído doce a mantê-la em berço epitelial...
Doeu-me o corpo intruso
cristalizado em áspero sal,
haurido por meus lábios.
Na tristeza de um anjo caiu uma gota molhada.
Ela traz o sonho de não mais ser lágrima sofrida.
Voce baixou a espada, deu-se por vencida.
O pingo de saudade,
Deitou com a piedade e adormeceu.
E daquela pequena,
Bela e frágil lágrima, só restou a poesia,
Salgada....





quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Endless Time

Time is endless in thy hands, my lord.
There is none to count thy minutes.
Days and nights pass and ages bloom and fade like flowers.
Thou knowest how to wait.
Thy centuries follow each other perfecting a small wild flower.

We have no time to lose,
and having no time we must scramble for a chance.
We are too poor to be late.

And thus it is that time goes by
while I give it to every querulous man who claims it,
and thine altar is empty of all offerings to the last.

At the end of the day I hasten in fear lest thy gate be shut;
but I find that yet there is time.

(Rabindranath Tagore)

Ocean of Forms

I dive down into the depth of the ocean of forms,
hoping to gain the perfect pearl of the formless.
No more sailing from harbor to harbor with this my weather-beaten boat.
The days are long passed when my sport was to be tossed on waves.
And now I am eager to die into the deathless.
Into the audience hall by the fathomless abyss
where swells up the music of toneless strings
I shall take this harp of my life.
I shall tune it to the notes of forever,
and when it has sobbed out its last utterance,
lay down my silent harp at the feet of the silent.

(Rabindranath Tagore)

Honra-me com teus nadas....

Honra-me com teus nadas.
Traduz me passo
De maneira que eu nunca me perceba.
Confude estas linhas que te escrevo
Como se um brejeiro escoliasta
Resolvesse
Brincar a morte de seu próprio texto.
Dá-me pobreza e fealdade e medo.
E desterro de todas as respostas
Que dariam luz
A meu eterno entendimento cego.
Dá-me tristes joelhos.
Para que eu possa fincá-los num mínimo de terra
E ali permanecer o teu mais esquecido prisioneiro
.Dá-me mudez.
E andar desordenado.
Nenhum cão.
Tu sabes que amo os animais
Por isso me sentiria aliviado.
E de ti, Sem Nome Não desejo alívio.
Apenas estreitez e fardo.
Talvez assim te encantes de tão farta nudez.
Talvez assim me ames: desnudo até o osso
Igual a um morto.

(Hilda Hilst)

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Escrevendo

Sou como um escravo que se embebeda
Diante do negrume da vida sórdida
Da inutilidade dos dias iguais
Um cenário às avessas.
Questionando a vida,
Esquecendo a mim mesmo.
Acima da consciência verbal,
Convivendo bem com a idéia do fracasso,
Reinventando-se a cada invenção.
A sutileza de uma linguagem,
Que encanta.... envenena....
E as máscaras não caem.
Que transmite.... engana....
Com vontade implícita, velada.
Às vezes muda, calada como a noite,
Acaricia.... fere....
Oculta as trevas da própria alma,
Instrui.... ilude....
Nada tem a dizer,
Nada merece ser dito.



quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Apenas acontece.


Caem as resistências
diante da vulnerabilidade da vida.
A finitude se apresentou
lenta e inexorávelmente.

Doença,
Garra,
Lágrimas,
Risos,
Lembranças...
Imprevisibilidade da saúde que engana.

Fiquei
sem saber lidar, com o fato de que a vida acaba,
ou sem querer.
Desconstrução do alicerce.
Revivência emocional.
As palavras mantém encobertas as coisas que acreditava.
Encaro um penhasco profundo, escarpado, assustador,
sem fim.
A única morte é a perda.
Perdi.

Vamos mudar o jogo?
Revela um final diferente,
da tua inércia.
Diz: não é definitivo,
dá para reverter,
mudar a história.
Fala!
Vou te esquentar...
Olha aqui!
Te amo, estou contigo!
Estava... voce se foi.
O jogo acabou...

Esperei o despertar,
para o que não há mais a dizer,
na fragilidade da dor da ausência.
A dança das sombras fala mais alto.
O tempo é fogo que queima, sem luz.

Veja como vivia distante de mim mesmo...
e hoje me procuro.
Não há mudança que não inicie,
na escuridão do coração.
No meio da vida estamos na morte,
sós...

Simples assim.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Pela Metade


Tenho uma palavra pela metade
que não posso escrevê-la,
já que não está completa.

Não aparece nem a ponta
daquilo que representa.

Mas ela está aí,
esperando para concluir,
querendo de mim
o que quer que seja:
um dizer, sua interpretação,
o corpo e sua cabeça.

Mas eu não sei,
nada sei sobre ela.

Apenas que está pela metade
e justo aquilo que falta,
é o que eu tenho dela.

(Gabriel Gómez)

sábado, 13 de outubro de 2012

Indiferença


Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.

(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Identidade


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.

(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Pensar


Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

(Fernando Pessoa)

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Cartas


As cartas não contam nada
como alguns acreditam.

As cartas, como Rubem Alves disse,
são para que mãos separadas se toquem
na mesma folha.

Que separam?
Não sei.

Mas transbordam palavras,
perseguem histórias
e apenas sossegam
quando reveladas.

Que revelam?
Não sei.

Algumas, só lidas pelo fogo,
não chegam a outras mãos
e ardem mudas,
consumidas.

Que calam?
Não sei.

E voltam a guardar segredos
E se anunciam
com outros nomes,
outras tintas
e a mesma morte.

Assim como o silêncio?
Talvez não convém lembrá-las.


(Gabriel Gòmez)

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Solidão

Quando estou só reconheço

Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.

E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.

Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por coisa esquecida.

(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Universo Paralelo

As crianças correm,
O homem anda descalço.
As crianças desbravam,
O homem acomodado.
As crianças crescem,
O homem estagnado.
As crianças riem,
Um pobre homem,
um velho coitado, famigerado,
Tem fome de juventude
Num corpodebilitado.

(Desconheço o autor)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Se depois que eu morrer...

Se depois que eu morrer, quiserem escrever minha biografia,
Não há nada mais simples:
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento serias achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.

(Alberto Caeiro)

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Saboreando Outro Sabor

A possibilidade do imprevisível
Instaurada na experiência do não ser
Acre...


Salgo com as lágrimas que caem
Ao sabor das letras de todos os silêncios
Dispensável...

Sou concha que erra ao sabor da maré,
Só como os portais e torres ao abandono.
Ao sabor do destino vegetal de outras reflexões,
Na desordem de meu desamparo,

Sempre uma coisa tão inútil como a outra
Diz o amigo que me restou...
Inútil, como também sou.


Ser desnecessária, insípida,  ninguém,
Difícil arte de degustação...
Deve ser a embriaguez que dá seu profundo sabor.

Cercada de dúvidas

Tua presença existe ou eu criei?
Pergunta de uma boca muda
Vencendo ansiedades e limitações...
Busco um abrigo,
No pesponto do coração.
Singularidade ausente,
Multiplicidade de perspectivas,
Equilibrando-me entre pontos e vírgulas.
É tocar o céu com o pensamento,
Ouvir árvores floridas de música,
E num instante, sentir a vida.
Purifico a alma na paz de tua companhia.
Nesta estrada sem chão,
Meu grito sem eco,
Cai em meu próprio esquecimento.
Sem imagem no espelho.
Chovem gotas multiplicadas pelas lembranças.
Sorrisos, partilhas,
Na espiral deste caminho
Juntos de novo...
Uma interrogação passeia por aqui...

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Honrar à Vida

 
Não! Permanecer e transcorrer
não é perdurar, não é existir
nem honrar à vida!
Há tantas maneiras de não ser,
tanta coincidência sem saber
adormecida.
Merecer a vida não é calar nem consentir,
tantas injustiças repetidas...
É uma virtude, é dignidade!
E é a atitude de identidade mais definida!
Isso de durar e transcorrer
não nos dá direito de enaltecer.
Porque não é o mesmo que viver...
Honrar à vida!

 
Não! Permanecer e transcorrer
nem sempre quer sugerir,
honrar à vida!
Há tanta pequena vaidade,
em nossa tola humanidade
enceguecida.
Merecer a vida é erguer-se na vertical,
além do mal, das quedas ...
É como dar à verdade,
e a nossa própria liberdade
as boas-vindas! ...
Isso de durar e transcorrer
não nos dá direito de enaltecer.
Porque não é o mesmo que viver...
Honrar à vida!

(Eladia Blázquez)

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Melancolia Urbana

Sim, é de voce que falo...
Ouço de novo e de novo seu compasso
Vejo o verde sinto a fortaleza de tuas imagens
Lembro... estou longe...
Janelas cerradas ao agora
Teu som invade meu todo
Transborda sentimentos.
Quisera ter-te comigo
Sei que já fui sua, foste meu abrigo.
As árvores passam e te escuto.
Sinto tua arquitetura, tua vibração,
Em cada esquina uma história
E chora meu coração.
Distante, sem saber o que tens para mim
Sedução, magia, mistério,
Rasga tua carne,
No espelho, reflete teu brilho
Acerca de mim.

Los Pescadores Del Misterio

Son unos viejos pescadores.
Pescan su propia soledad.
Dialogan sólo con el agua
¿qué cosa el agua les dirá?

Disuelto atrás de su mirar,
nos mira fijo el Más Allá
como un sutil molusco en celo.

Mi río grande como un mar,
¿qué duro enigma guardarán
los pescadores del misterio?

Parecen mediums de otro mundo
que saben todo, hasta callar,
y el alfabeto de los peces,
peces profetas, que los hay.

Son esos viejos que al morir,
mueren ahorcados en su reel,
flotando allá en futuros puertos.

Mi río grande como un mar,
¿qué duro enigma guardarán
los pescadores del misterio?

Ellos ven fuegos en el fondo
y arder el agua han visto ya,
y bajo el agua en llamas oyen
cantos en claves de temblar.

Y unas medusas vieron hoy,
altas medusas que no son,
son las banderas de algún pueblo.

Mi río grande como un mar,
¿qué duro enigma guardarán
los pescadores del misterio?

(Horacio Ferrer)



quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Stages

Stages
As every flower fades and as all youth
Departs, so life at every stage,
So every virtue, so our grasp of truth,
Blooms in its day and may not last forever.
Since life may summon us at every age
Be ready, heart, for parting, new endeavor,
Be ready bravely and without remorse
To find new light that old ties cannot give.
In all beginnings dwells a magic force
For guarding us and helping us to live.
Serenely let us move to distant places
And let no sentiments of home detain us.
The Cosmic Spirit seeks not to restrain us
But lifts us stage by stage to wider spaces.
If we accept a home of our own making,
Familiar habit makes for indolence.
We must prepare for parting and leave-taking
Or else remain the slave of permanence.
Even the hour of our death may send
Us speeding on to fresh and newer spaces,
And life may summon us to newer races.
So be it, heart: bid farewell without end.

(Hermann Hesse)

(Homenagem a um dos maiores "escrevedores de cartas" dos século XX, na data dos 50 anos de sua partida.)

Se já não sei quem sou


A imagem dissolvida no ar.
As pedras impassíveis
Descansam sua grandeza solitária.
Sobre as águas exalta-se a cor do céu,
Manchadas com a sombra do pássaro.
As sombras dos rostos da noite
Que sonham com o amanhecer,
Escondem-se em mim
Confundindo seu medo com o meu.
Metamorfose,
Recompensa de Tiresias.
Sem razão a voz,
Que calada, emudece.
É como um grito este silêncio.
Livros abandonados aos pés,
Apócrifos amantes da imaginação.
Calor de suas antigas madeiras,
Cuja textura sussurra sem palavras.
A nostalgia que não devo confiar.
Um espaço que não me reconheço,
A não ser por negação.
Que mais nunca encontrarei?

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Viajante

Repouso na água fétida
Ansiando solidariedade
Afogado na água turva
Aspirando dignidade.
Entre imagens hediondas
Corpos vacilantes e vazios
Fotos, reflexos, cópias
Imagens.
Um dia sem sonhos.
Construindo o destino com sangue.
A carne recorda
Desabitadas formas
Da cor do frio.
Olhar de quem teme perder.
Dói como uma mordida
Dói, sangra sem saber porque.
Contempla a porta
Fechada para visitantes indesejáveis
Que a atravessam
E assistem no escuro
O náufrago no fundo
Do sonho inominável
Vida diminuta
Dorme, não desperta, segue...

terça-feira, 7 de agosto de 2012

De que falam os que falam sozinhos pela rua?


De que falam os que falam sozinhos pela rua?* Com quem discutem, passeiam, ensaiam respostas? De que riem em alto e bom silêncio? Aonde vão os que não têm lugar? De onde voltam? (Lembro daquele bumerangue que não voltou porque encontrou Deus...). Resistindo, contrastando, cheios de ar, mas em pedaços.


Que desabafo morreu de angústia? E aspirou vida. Que monólogo acompanha o céu? (Que se nubla se tocado). Para onde olham rasgando paisagens? Enquanto a fome canta, desafinada...

Para onde não vão os que falam sozinhos na rua? Por onde passam? Detidos. Onde pára sua fala? Que passa. Quem cumprimenta calado, de muda testemunha, e junta entulhos de presença? Qual o limite? Que cruzam como uma rua ou um rio de água triste, de fumaça molhada, deserta. Parecem caminhar longe, porque longe tudo é mais leve.

Quem o alheio interlocutor que não aparece? Que platéia imaginária e muda responde ocupado? Respiram. Extasiados, distraídos, quase sem necessidade de voar; isso que os pássaros dizem escrever. Guardam secretos, falsos souvenires dos lugares, nos bolsos da calça. E lhes colocam nomes, para logo esquecê-los, nos mais remotos destinos. Sabem que é para isso que servem os segredos. Beijam cachorros de rua, que não latem nem mordem, de andares sem rumo, desorientados. E também falam com eles. Brincam com o silêncio, o nada e um pingo de morte cheio de vida. Inventam que não sentem dor. Descrevendo, insistindo com os inúmeros seres que os rodeiam e não sabemos, mas não se distraem.

Para quem os gestos e as palavras? Que desabam, repelem e abrem janelas? Talvez falem para todos (pensam em voz alta), o que todos apenas confessam em voz baixa.

Que ausência apontam seus dedos? O que justificam e não revelam? Anotam, oralmente, cartas nunca escritas, mandadas vagamente, com a vontade secreta de jamais serem lidas. Para quem a música assobiada, que ilumina silêncios de ternura apodrecida? Que faz ouvir sua própria fala? Que parece orar, de mãos juntas, insuficiente, precária; com olhos que não enxergam, porque também falam... E contam mais do que dizem.

Caminham sem pressa, ou param, já que tudo nunca chega, ou chega tarde a lugar nenhum. Nada é tão nosso, quanto deles o desejo por falar; ainda que a rua cale ou libere o que sentem. E encontram muito em muito pouco; provocam movimento, flutuam devagarzinho como silêncios que nos pegam no meio da fala.

Não abrem portas, apenas passam sua presença por debaixo delas, e olham pacientes pelo olho da fechadura, esperando. O espelho quebrado reflete a voz, mas não recolhe seu rosto; não serve para se olhar, apenas para enxergar quanto deles somos; quanto deles temos.

Enquanto nós falamos com máquinas que não funcionam, com plantas que crescem e os espelhos dos elevadores, eles falam sozinhos...

Como então encontrá-los sem nos perder primeiro? De que não falam os que não falam sozinhos? Por que não falam? Talvez os que falam se perguntassem. E por isso falam. Sozinhos pela rua.

– Está falando comigo?

– (...)

– Não. Desculpe.

  (Gabriel Gómez)

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Oficios

Bromeando friamente
como mercenarios antes de consumar
una matanza
acuden los hacheros al bosque

Bromeando friamente
la pupila posada sobre el tajo
ajena al gigante que se desploma

Bromeando friamente
como la muerte nos visita

Bromeando friamente
Como el amor que se va

(Fernando Réndon)
(El fin de semana pasado, el poeta sudamericano recibió el Premio Internacional de Poesía Mihai Eminescu, que se entrega en Rumania. )

Flauta Melancólica

Alma queimada
Janelas fechadas
Pobres e frágeis criaturas
Vozes gritando em silêncio
Visões
Inexplicáveis, preciosas
Lágrimas de amor
Energia do 3 e do 5
Calor sepultado em verões passados
Incinerados
Monte de brasas
Fuligem
Salmos hebraicos renascidos
Terna cumplicidade
Harmonia dos sentidos
Sonhos
Afaste-se, se prefere
A paz chega aos poucos e se vai
As nuvens não deixam dúvidas
Inconstantes e ansiosas
Enfrentando, arriscando,
Rigor de julgamento
Fato consumado
Talhada nas raízes profundas
Queixando-se, lamentando,
Expandindo o nível de consciência.

Janela

Realidade fora (de mim)
Conflitante
Visão imprecisa, interior
Fantasia, sonho,
Como uma maquilagem.
Sofrimento da vida.
Se não dá para pintar as paredes,
Cubra a janela
Cor sobre cor
Monocromático
Novo mundo
Amplo universo de vidas
Criadas no vidro
Sentidas na gota da chuva
No rosto sem face.
O que voce quer de mim?
Cortina?



sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Última visão

Jantando velhas paisagens
Distantes no tempo e sabor
Queda de corpos e copos
Ruborizando o entardecer.
Inflama, cria chama, realça,
Multiplicidades, antagonismos,
Transição de opostos reais,
Uma experiência inédita.
Desfralda-se o ser,
Perfilam-se os mundos,
Esvanece-se a consciência,
Sem que a esperança conforte.
Retida no eco da recordação,
A contemplação do subsolo da vida.
Conexão casual,
Feixe de impulsos e sentimentos,
Confluência com o circundante empírico.
Caducidade, tensão, esmaecimento,
Inteiramente enigmático, cruel...

Chove em mim.

Risada displicente
Intimista e ampla
Absoluta e insana
Implica comigo.

Escorrem flores na ousadia do olhar desviado,
Doçura nas entrelinhas da boca
Onde goteja mel, mutável,
Interface limpa, vazia, inviolável.

Brota do sem sentido
A influência das areias
Que faz a travessia entre a vida e a água.

Incoerência da lógica,
Nada convincente no pesadelo das sentidas amarguras,
Entre sombras e escombros de úmida solidez.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Afinal, que importa?


Eu... indescupavelmente suja
usufruindo, possuindo, dominando...
o estético ou sensorial contam mais.
Transcendo a capacidade de viver,
autorrefutante, trivial...
Visões sombrias...
Parece uma manobra superficial
escutar pensamentos
de espírito selvagem, indomado.
Na memória da alma,
determinação inabalável...
Desenvolvimento melódico, harmónico e rítmico.
Poderia ser verdadeiro
abnegar a gratificação instantânea...
Mas não posso ter boas razões para pensar que não seja
um caixote do lixo de pseudo-questões.


sexta-feira, 15 de junho de 2012

Alegoria

Na graça e beleza de uma escultura grega
Metáforas sucessivas
Traduzindo a essência entre corpo e alma
Como ideal de harmonia. 
Estética desmedida e insensível
Quebrando contornos, libertando,
Contestando valores
Desdizendo confissões.
Olhar melancólico dilacerado pela culpa,
Fragmentação... ruptura.
Chegado o dia da tua escolha.
Lúgebre evidência já pressentida
Pelo meu incentivo à minha derrota.
Pela integridade social, aparência,
Sombrias afinidades eletivas,
Antítese cinzenta, nua, cruel.
Resta um deserto de idéias,
Um desmoronamento interior.
Resignação invertida.
O coração nega-me o equilíbrio.
Sou o que escondo na plenitude dos sentidos
A casa abandonada.... em ruínas. 

terça-feira, 12 de junho de 2012

Soneto

Pela minha vida, sem amargura,
Sem suspiro, vai uma dor sombria.
Dos meus sonhos a florescência pura
É a benção do meu mais tranquilo dia.

Às vezes cruza a trilha que acompanho
A grande questão. Sigo assim, frio.
Pequeno, como à margem de um rio
Do qual não ouso medir o tamanho.

Então me vem um lamento, um torpor
Cinza como, nas noites de verão,
Céus em que raro uma estrela se ascende.

Minhas mãos tateiam por amor,
Porque gostaria de fazer uma oração
Mas ela escapa à minha boca quente...

(Franz Kappus)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Melhor que nada

Lembrar.
O tropeço na ida da chegada
Dos olhos que me queriam
Que não veem
Ou os sentidos que não distinguem
A saudade do tudo que é nada
O medo do destino solto ao vento
Despreparo para acordar
Do sonho


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Dissonância harmônica.


A voz vaga pelas ruas desertas da cidade
Em companhia o vento triste e gelado.
Uivo que não consegue deter o nome da sede,
Perdida em sonhos sobre águas turvas
Por onde navega, remando com braços sem memória.
Azul enegrecido, asfixiante,
Sob o que escondem-se os grande segredos,
Sussurados, sufocados....
Pela boca imprudente emerge o medo.
Parte da perfeita imensidade,
A barca é abandonada no mar da paixão.
Asas tristes da gaivota cansada de não voar
Que lamenta e alça voo...
Muito mais que um destino.
Guerreiro equivocado, desnudo, descrente
Não pode ganhar a batalha porque quer.
Esquece que há uma mãe que sente,
Um amante que sonha,
Uma lua que canta a alma sem razão.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Quase


Nascem raios de luz quase invisível
Desponta, sai das trincheiras do medo
Mostra os versos na lucidez do voo

Encanto, feitiço, quase insensível


Increível pintura distraída quase vida
Na dança sem par e sem parar
Na sombra do que roubaram
Escondidos sob a pele quase lida


Sim, sou toda sobra do que desejaram
Quase lida
Quase vida
Quase insensível
Quase invisível...

Transformação


Imprecisa, inesperada
Imagem, miragem
Parto partido.
Transformado
Pontos nevrálgicos em caules duvidosos,
Verdades em armadilhas.
Manhãs vestidas de colheitas e plantios em
Sombras noturnas sem identidade.
Secas, retorcidas.
Desgraça e triunfo.
Lágrimas secas que brotam
Inúteis.
Sem tempo.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O Pior


Tinha para dizer-me

o pior dos silêncios que

eu não queria ouvir.



Então calou.



(Gabriel Gómez)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Pétalas guardadas....

Na ânsia de morder tua vida
Sobre ásperas plumagens cor de amor
Na dor de novos sabores
Já não sei sonhar


Permito-me chorar, sentir, pressentir
A vida sem tua voz
Sem tuas madrugadas de alma cansada
Nas sombras de lembranças invioladas


Que voltem as brisas que vergam os ciprestres
Que subjuguem também esta angústia
Raptando momentos secos e vivos
Como as palavras que fluem de tua pele

Sintonia

Me fere
Me rouba de mim
A nostalgia que incendeia
Consumindo como vela
Soldando os pés à terra
A esta maldita terra
Que me mantém à distância
Quase eterna...

Como não sucumbir
Em tuas praias afogueadas
Ao sol da lua...
Tua voz silenciosa
Sempre volta
E não te chamei...


Ah tua luz e tua canção!
Me perderia se a voce eu perco
Ah que decida renascer!
E dormir e despertar e encontrar
Até que surjam pelas mãos
As perguntas quase mortas
No seu labirinto
Onde pinto o mundo de aquarela.

Outra realidade

Sabe o amanhecer porque existe?
Beleza momentânea
Se eterno, deixa de ser
Infinito então
Tempo fora do tempo 
Oculto do mundo
Vivenciado
Valioso por ser secreto
Visível
Vestido de anonimato
Vagando
Estátua de demônios
Escudo de guerreiros
Busca o que não existe
O real significado
Não me atrevo a abrir o cofre...
Sentindo sua chegada noturna
Sem dúvidas
Vagando sem lugar certo
Vindo sempre de onde está
Aterrisando sua claridade
Elevadora das almas
Dos sonhos com olhos abertos
Embriagando a visão
A despertar chamando-se Sol
Um nome vazio...

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Mulher do Espelho

Hoje, que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.
Já fui loura, já fui morena,
Já fui Margarida e Beatriz,Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.
Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?
Por fora, serei como queira,
a moda, que vai me matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.
Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus,
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.
Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho

(Cecilia Meireles)

Cântico XXVI

O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste breve,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...

(Cecilia Meireles)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Porque há algo em nada?

Quantas vezes morri
Quantas vezes me mataram
Inevitabilidade
Probabilidade
Mínima realidade alternativa
Específica
Real
Desqualificada
Vazia
De que serve uma resposta se nada há?

Dor

O vulto das trevas persegue
Obscura barca ardendo sob as lágrimas
Lago, vago, mago, gago....
Se ao menos esta dor se visse
Coberta de cicatrizes
Como áspera guitarra
Entoando o silêncio
Melodia que escorre, goteja 
Cala os lábios do coração ressequido
Acredita em sonhos pra não ir
Olha, pensa, cala
Regurgita brancas palavras
Camélia
Sem manchas de desprezo
Sal
Labaredas que sufocam gritos
Febre
Enquanto outros amam-se na sombra
Da morte vencedora (por mais que a matem)