Não.
Não tenho fé na palavra.
O dizível é o mínimo
daquilo que quero dizer.
Do outro não falo.
Apenas das voltas da chave na boca,
da sombra que o grito deixa,
do que acaricia o olho,
dos beijos acumulados, interiores,
sem gastar.
Do que evapora e dorme profundo,
das fotos de costas,
das moscas no abandono do céu
ou da porta estreita da casa imensa
por solitária.
Do outro não falo.
Apenas das letras nunca lidas
na fumaça do frio.
Do além de si mesmo,
dos cachorros perdidos,
da mesma dança da colher na taça.
Do livro no peito de quem dorme,
da cadeira virada,
do nada que antecede a dor,
ao tremor, ao fim.
Do outro, naufrago.
Deve existir outra maneira de calar-se.
Da caricia esquecida na tua mão,
e que eu segurei como se fosse
o ultimo galho
que me prendia antes de cair.
Bem ai:
a falha
da palavra.
Do outro não falo.
(Gabriel Gómez)
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