SOMOS INTEIRAMENTE LIVRES LOGO, INTEIRAMENTE RESPONSÁVEIS.







terça-feira, 19 de julho de 2011

Kadosh

Você está na cozinha
da sua casa. É noite
e está escuro. As luzes
da cozinha e da área de
serviço estão apagadas.




Como pôde acontecer
isso?! Você liga pra
portaria pra saber
quem estava de plantão
naquela noite. Ogden
Nee. Você discrimina
pela voz aguda e fina.




Você lhe diz que talvez algum
fusível tenha queimado, pelas
luzes apagadas ao mesmo tempo.




Pede que ele vistorie o painel de
comando. Não, não é assim. Ogden
Nee te dá uma explicação lógica e
matemática. Ogden Nee é o cara.
Ele te faz ver que as coisas as
coisas elétricas não são como
você pensa, argumenta que os
fusíveis que comandam a área
de serviço e a cozinha são inde
-pendentes. Faz sentido lógico
-matemático. Além do que
[acrescenta ele e explica ainda
mais], é o mesmo fusível que
comanda a área de serviço e
o hall de entrada do prédio,
e este está aceso, diz ele com
seu sotaque característico.




Pois bem: num único interfonema
você fica sabendo algo a respeito de
redes elétricas, fusíveis, teu próprio
prédio e ainda, de quebra, se lembra
do nome do porteiro ao ouvir seu acento
pronunciado em todas as sílabas: fú-sí-vél,
bem visível, apesar da escuridão inadmissível.




Você já está no ganho, de um jeito ou de outro,
ainda que tudo esteja preto e pareça um pouco
estranho. De qualquer jeito [repito, porque é o
jeito pra que te entre bem no ouvido, uma vez
que os olhos têm à frente um negro indivisível,
e também repito mais uma vez, porque é meu
jeito chato, incisivo] que você já está no ganho,
porque já discrimina algo a respeito de instalações
elétricas, enquanto o telefone toca no escritório.




O tique taque do relógio parece um pouco
incômodo nessa hora, um pouco mais longo
que o tic tac de uma hora atrás, e o timbre
do telefone te soa outro. Essa é uma noite
onde os sons se esmeraram. Depois você
anota na agenda, logo que tiver tempo e
meios. É uma data pra se marcar em
vermelho bem no centro, como um tiro
certeiro. Você ouve tudo aquilo amplificado,
o que era diminuto tic tac tic tac [até eu,
daqui, escuto...] agora já é outro, e pensa
no timbre agudo de um telefone que mais
parece uma sirene [e você não o reconhece],
abrindo espaço na rua para o socorro urgente
de um homem infartando. O telefone soa mais
como um alarme emperrado. E você o ouve
com aquela desconfiança levemente inclinada
para o lado, trinta e três graus à esquerda ,
acompanhando um arco de sobrancelha
espessa [como é seu costume nessas horas
densas tensas imensas, dessas que demoram
e que se pensa que nunca desembocam em
nada que compense...], você só ouve com
aquela desconfiança sinistra e inclinada,
e não há nada à vista. Você segue apalpando
azulejos tábuas e portas e pistas variadas,
porque chegar ao escritório ao lugar do telefone
acelerado e agudo é sua maior conquista, de fato.




Fica imaginando que as lâmpadas deviam ter
queimado todas juntas, por uma estranha
coincidência que era melhor nem dar nome.




A impresão que você tem [e me parece assim
também..., bastante justa e apropriada] é que
você se tornou um visitante [ou refém] em sua
própria casa [sensação esta bastante intrigante],
e que está descobrindo as lâmpadas queimadas, o
porteiro do dia da noite com voz anasalada,
as instalações elétricas, o alcance sonoro de
um simples relógio de estante, o timbre
estridente e tridente de um chamado, ao
mesmo tempo perto e tão longe, a espessura
da noite, tudo ao mesmo tempo. Teu jeito
inclinado, agora, mais parece uma pergunta.




Na verdade, melhor dizendo, quinze perguntas
encaixadas como num jogo chinês ou russo de
cubos sequenciados e descobertas progressivas
e inconcretas até o nada concretíssimo esvaziado.




Você se dirige ao escritório, desse jeito quase
incógnito, sorri ocultado pela própria pergunta
que te encobre, para atender o telefone. Para
atender ao telefone. Você escolhe. O fato é que
é no escuro, continua sendo escuro, e é um tele
-fonema anônimo, que mais parece um trote.




Essa noite precisa ser anotada em vermelho
vivo, rubro, vibrante, na agenda, logo que
possível. Porque os eventos massivos e
maciços nebulosos sonoros [não-imagísticos
nem imaginativos], são gigantes, muito para
além de qualquer cálculo probabilístico.




Mesmo para Ogden Nee, nisso especialista.




Entregue a situação, o campo matricial dos
eventos a qualquer matemático, e ele o
confirmará no terceiro minuto e meio.




Quem fala do outro lado da linha telefônica,
na linha telefônica, na borda do mundo,
parece querer provocá-lo. Parece ser
mal-intencionado. Toque os ouvidos
com olhos de ver e saberá que nada
disso parece: é, de fato. Você precisa
discriminar a voz, as intenções, com
o maior cuidado. Veja lá [ainda que
ver não seja o verbo adequado...],
que é delicada a operação, tanto
ou mais do que cogitar a teia da
instalação elétrica do teu prédio
intacto. Perceba que, à medida
que discrimina a entonação da
voz e tua e sua sina [a de ambos],
uma teia vai se insinuando e se
formando à tua frente [não
se sabe se urdida pela ardida
voz ou por tua mente...], cujos
fios e trama e trançado são o
fruto pronto e o produto
acabado ingrato de todas
as discriminações-em-rede
-e-em-teia que tivera de
fazer até aqui, e que ainda
estava fazendo, se bem
que não quisera. Perceba




que é uma rede bem moldada, bem formada,
bem simétrica, uma teia em complexa construção
geométrica. No centro dela há uma voz cantando
um cantochão insano [muito abaixo, muito adentro
do chão], uma voz no breu no abismo e escuridão.




A voz de um demônio num túmulo. Não perca a
teia de vista [mesmo sem usar a vista], porque
ele é o centro. Não perca as pistas. Veja o estilo
como ele dialoga. Ele inventou um diálogo sinistro,
que mais soa como um monólogo-sem-fundo-de
-tão-ríspido, de onde surgem todas as teias, e as
suas características perversas misturadas. De
ambos. É dele a idéia de fazer misturas espúrias.




Perceba as sutilezas da voz mal-dita e mal-pronunciada.
Ele declama com monotonia estudada na língua de hoje
e de ontem, em copta clássico, e seu sotaque é mais
difícil de distinguir do que um rastro de giz preto no
meio da noite. Entre irado e cínico, observe como ele
começa a rir, entrecortando o canto com seus espasmos
de gozo e asco misturados. Assim se diverte um demônio
num centro de breu infinitesimal, louco, ávido, enclausurado.




Mas o que ele diz não é pouco, nem para ser des
-considerado. Ele ri alto e longe e te pergunta se
você acha que não são tuas as tais características
agora por ele nomeadas em trinta línguas mortas.
Ele te pergunta [rindo e alto e longe], se o que ele diz
não responde às tuas perguntas tão simples, tão
cândidas, e às tuas equações matemáticas.
Pergunta, e quase goza, se tudo não te faz
sentido agora. Perguntas tão simples, tão
cândidas. Incandescentes.




Um fio de metal rubro em tua alma se acende.
E ele, por seu lado, do outro lado, bem assentado
no avesso de tudo, tenta traçar teu negro retrato.




Olhe pra mim agora. Mesmo que não me veja.
[Sim; eu sou jovem, terna, e minha pele é como
seda. Silenciosa e discreta]. Observe que te
acompanhei até agora. [Ao fim de tudo,
merecerei um beijo e, depois, te deixarei
mudo. No momento, é ele que te beija
com insultos]. Perceba bem o exagero
deste demônio, mais astuto do que um
réptil, a forma meiga com que quiseram
descrevê-lo na Bíblia. Tudo é sempre
muito mais complexo do que o dito no
Livro. Veja que o Cujo Maldito quer fazer
de ti o Seu Espelho! Nisso reside a armadilha
do Abismo. Veja que tua mandíbula já se
enrijece, como se você se congelasse e se
tornasse aquela Outra Face! E isso não
está explicado no Gênesis em todos esses
detalhes. Existe uma coisa a ser feita, uma
única coisa, decisiva, nessa hora multívoca
e multidiversa, onde todos os sons e signos
parecem à deriva. Isso faz parte da Ilusão
que ele cria. Ele não é o Pai da Ilusão. Ele
também mora na Ilusão, e é ao mesmo
tempo seu Criado e seu Agente. Veja como
tudo é mais complexo do que jamais se
disse. Primeiro passo: não se impressionar
com o que ele nomeia, porque ele é o pai
das nomeações mal-feitas e mal urdidas,
suas etimologias são mantos rasgados e
mal costurados, com pentagramas invertidos.




Ele é subentendido naquilo que não nomeia.




Daí o breu que o acompanha. Sim, eu te
revelo: o Breu é seu halo. Ficou claro?!




Veja agora o demônio deitado no palácio
-cubículo de sonhos quadriculados e
infinitos que construiu para si mesmo,
e para o qual convida os seus eleitos
-malditos. Veja o fio que a ele te liga
[daí a razão de toda essa teia entretecida
como janela para uma espera desaparecida],
o fio que é o fim de um fuso horário terminal.




Observe o fio que a ele te liga, e um outro que
se escoa para uma espécie de frasco, como uma
canícula de soro, ou algo parecido. Eu vou te
explicar como se dá o diálogo e o monólogo
com o Diabo, o que não está escrito abertamente
no Livro Sagrado. O diálogo com um demônio
[e há vários, como os cubos descentrados no
infinito, do infinito ao nada...] é isso: jogo e
desafio que se dá num ponto morto, num
ponto cego, no centro do Breu, numa teia
entretecida entre ele, você e eu. Veja a
astúcia! Ele é um arquiteto de minúcias.




Perceba uma coisa: se tiver voz pra falar,
que ele te ouça! Se puder nomear o que só
lhe pertença [a ele e não a você, sem vestígio
de grão ou presença...], sem que haja rastro
algum entre os dois [mesmo que não se veja
ou não se possa ver, na noite espessa e densa],
ele dorme emudece. Já disseram [e disseram
bem]: "Não julgueis!", mas há o outro lado, e é
para isso que me posto ao teu lado direito e te
explico. Se você acerta na mosca o que nomeia,
no centro da testa da funesta besta, e diz a ela
a ele o que só a ele interessa [alguma coisa que
ainda não te contamine em nada..., e eis a chave
-mestra...], seu sangue se esvai pela canícula, ele
se desvitaliza e dorme dorme ainda mais, no mais
Breu e no mais longe. Disso não te falou nenhum
sacerdote. Porque das verdades maiores só se
conhece o esmalte. Se você errar no teu
julgamento, seus sangues se misturam.




A mosca fica presa na teia. E você é a
mosca pequena amalgamada à aranha
-mosca-que-teceu-a-teia. Acerte duas
vezes, e veja seu torpor. Não mais te
aborrece, desde que saiba julgar e
limpar-se cada dia melhor. Essa é a
outra face do que disse o Senhor,
da mesma Verdade. E faça de
modo a que não te suje o sangue.




Kadosh. O apartado, o santo, o são.
Essa a lei da circuncisão. Meu nome?!
Eva. E há muito já me redimi...




Veja que as luzes já se acendem...


(Marcelo Novaes)

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