Rega a ferida de manhã, e apenas sente
que o vento sopra de noite.
Deita na poeira, bate em algumas portas
e bebe seus dias com miolo seco de pão.
Muda sempre, consome, dança, rói,
atormenta o que não pára de perder.
Tem a ternura dos idos, das pombas da fome
que comem na mão.
Mas seu rosto gasto, retorcido,
dilui-se na rua, desaparece de ignorado.
Vem do silêncio,
sem preparar a palavra.
Existe um lugar sem dor?
Cadê o jardim fora dos sonhos?
Porém, hoje, a ferida secou
e, sujo de limpeza que não prospera, agoniza
entre sombras assustadas.
Desaba tanto em orações e uivos
que gasta Deus.
Já não é hora do pássaro voar?
Mas não chama ninguém para contar-lhe a fábula,
nem ver a baba na última miséria exposta.
Apenas morre demais,
quando a dor parece suportável,
sem enxergar-se morrer
pela primeira vez.
O cão lambe a mão que parou de tremer.
O silêncio era uma promessa.
E jura, por tudo que já fez de errado,
que isto não é dizer adeus.
(Gabriel Gómez)
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